segunda-feira, 29 de setembro de 2014

1.ª resposta ao desafio n.º 1, lançador: Miguel

 

Novos mundos à vida

 
«Os seus serviços não serão mais necessários, lamento imenso. Sabe como eu aprecio o seu profissionalismo e a qualidade do seu trabalho, mas, é o país que temos… há que fazer cortes e a administração resolveu extinguir o seu cargo. Lamento imenso, Aníbal, nem calcula. Sei bem dos compromissos que assumiu, a recente compra do apartamento, e tudo. Será indemnizado, obviamente. Além disso, com o seu currículo e com as nossas boas recomendações, certamente, irá conseguir arranjar uma boa posição num futuro próximo. Pode até contar…»
Deixei de ouvir. Continuei a acenar mecanicamente com a cabeça, um reflexo de pura incredulidade, que acho que foi confundido por sinal de concordância, de tão bronco que é o Fonseca. Há mais de dez anos que me esfalfava por aquela palhaçada de empresa de consultoria, fazia horários impensáveis, procurava superar sempre o que me era pedido. Caraças, até me tinha custado a porcaria do casamento (ah e tal, ligas mais ao trabalho do que a mim, nhec, nhec, nhec) e lá foi Leonor, porta fora, formosa e bastante furiosa, levando consigo o mal cheiroso do bulldog francês. E ainda treinei não sei quantos estagiários. Aposto que um daqueles estuporzinhos petulantes me vai substituir.
Levantei-me a meio de uma frase qualquer e saí. O Fonseca deve perceber a asneira que está a fazer rapidamente. Logo se verá. Assim que chego à rua apercebo-me que nunca tinha saído para passear ao princípio da tarde em dias úteis. Claro que saía às vezes, para alguma reunião ou consulta médica, mas era sempre com pressa, com o telemóvel na mão a confirmar se havia algum recado urgente que exigisse a minha atenção.
Está bom tempo, agradável. Acho que nem ao fim de semana me apercebo do tempo já que, ou fico em casa a aproveitar para ler mais algum relatório, ou vou a um centro comercial, despachar alguma compra essencial. Férias, nem pensar em passá-las aqui, a pior das hipóteses leva-me ao Algarve, o normal é ir para a neve no Inverno, e para ilhas com boa praia, em diferentes localizações, conforme a época em que consego tirar férias. A ter de ficar em Lisboa no resto do ano, só funcionava com muito ar condicionado no carro. Para cúmulo, hoje o carro está na oficina e vou ter de apanhar um táxi para casa. A sorte, tal como o azar, vem sempre em pacote completo.
Começo a perceber que nos últimos tempos andei distraído com as virtudes da capital e viro à direita, até à Brancaamp.  Apetece-me aproveitar esta minha disposição nova, sinto-me como se estivesse a participar num filme cujo enredo desconheço. Subo em direção ao Rato, nunca tinha reparado na sinagoga, nem que há uns edifícios com prémios de arquitetura. Estou quase a dar razão à Leonor, deixei-me alhear demais do que me rodeia, nem percebi como. Viro para o Príncipe Real, cada vez mais atento aos detalhes, à calçada irregular, às fachadas mais ou menos deterioradas, reflexo desta vida de aparências e falsos conteúdos de hoje em dia.
Fico abismado, o Bairro Alto está tão diferente do que me lembrava dos tempos de estudante, e acho que não é só por ser dia. Na altura da faculdade era tudo tão diferente, jurava a pés juntos que seria magistrado do Ministério Público e defenderia a legalidade a todo o custo, nunca imaginei que acabaria como consultor, a argumentar por interesses à medida do pagamento. Algum dia hão de me explicar onde ficam os sonhos da juventude, deve haver um monte deles guardados em cantos obscuros das nossas memórias, em sacos de lixo bem escuros e atados, à espera da reciclagem da próxima fase da nossa vida.
Um casal de turistas pede-me indicações e eu respondo, em francês, que também sou turista. É a mais pura das verdades, hoje sinto-me estrangeiro no meio desta cidade onde moro há mais de vinte anos e que já é mais minha do que Beja, da qual nem o sotaque conservo. E as voltas que já dei, sem me aperceber muito bem como, já passei o Chiado, a Baixa e estou no Terreiro do Paço, a contemplar o Tejo. Outrora este foi o centro do mundo, deste rio saíam navios para todas as partes do mundo. Acho que ainda não interiorizei, mas também eu vou explorar um novo mundo e não faço ideia do que me espera. Sozinho a começar tudo de novo e, no entanto, quando menos esperava, foi hoje que me dei conta do charme que a urbanidade Lisboeta oferece, embora antes, de olhos rotineiros, abertos, apressados, nunca sequer me apercebi.
O Fonseca já me está a telefonar, mas não me apetece ter de lhe ouvir a voz estridente. Vou antes exercer o meu direito de visita ao canito, ele não cheira tão mal como isso. Pode ser que a Leonor se compadeça e me ofereça jantar e um pouco de companhia. Por hoje, não preciso de mais.

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