Novos mundos à vida
«Os
seus serviços não serão mais necessários, lamento imenso. Sabe como eu aprecio
o seu profissionalismo e a qualidade do seu trabalho, mas, é o país que temos…
há que fazer cortes e a administração resolveu extinguir o seu cargo. Lamento
imenso, Aníbal, nem calcula. Sei bem dos compromissos que assumiu, a recente compra
do apartamento, e tudo. Será indemnizado, obviamente. Além disso, com o seu
currículo e com as nossas boas recomendações, certamente, irá conseguir
arranjar uma boa posição num futuro próximo. Pode até contar…»
Deixei
de ouvir. Continuei a acenar mecanicamente com a cabeça, um reflexo de pura
incredulidade, que acho que foi confundido por sinal de concordância, de tão
bronco que é o Fonseca. Há mais de dez anos que me esfalfava por aquela
palhaçada de empresa de consultoria, fazia horários impensáveis, procurava
superar sempre o que me era pedido. Caraças, até me tinha custado a porcaria do
casamento (ah e tal, ligas mais ao trabalho do que a mim, nhec, nhec, nhec) e
lá foi Leonor, porta fora, formosa e bastante furiosa, levando consigo o mal
cheiroso do bulldog francês. E ainda treinei não sei quantos estagiários.
Aposto que um daqueles estuporzinhos petulantes me vai substituir.
Levantei-me
a meio de uma frase qualquer e saí. O Fonseca deve perceber a asneira que está
a fazer rapidamente. Logo se verá. Assim
que chego à rua apercebo-me que nunca tinha saído para
passear ao princípio da tarde em dias úteis. Claro que saía às vezes, para alguma reunião ou
consulta médica, mas era sempre com pressa, com o telemóvel na mão a confirmar
se havia algum recado urgente que exigisse a minha atenção.
Está
bom tempo, agradável. Acho que nem ao fim de semana me apercebo do tempo já
que, ou fico em casa a aproveitar para ler mais algum relatório, ou vou a um
centro comercial, despachar alguma compra essencial. Férias, nem pensar em
passá-las aqui, a pior das hipóteses leva-me ao Algarve, o normal é ir para a neve
no Inverno, e para ilhas com boa praia, em diferentes localizações, conforme a
época em que consego tirar férias. A ter de ficar em Lisboa no resto do ano,
só funcionava com muito ar condicionado no carro. Para cúmulo, hoje o carro está na oficina e vou ter de apanhar um táxi para casa. A sorte, tal como o azar, vem sempre em pacote completo.
Começo a perceber que nos últimos tempos andei distraído com
as virtudes da capital e viro
à direita, até à Brancaamp. Apetece-me aproveitar esta minha disposição
nova, sinto-me como se estivesse a participar num filme cujo enredo desconheço. Subo em direção ao Rato, nunca tinha reparado na sinagoga, nem que há uns
edifícios com prémios de arquitetura. Estou quase a dar razão à Leonor,
deixei-me alhear demais do que me rodeia, nem percebi como. Viro para o
Príncipe Real, cada vez mais atento aos detalhes, à calçada irregular, às
fachadas mais ou menos deterioradas, reflexo desta vida de aparências e falsos conteúdos de hoje em dia.
Fico
abismado, o Bairro Alto está tão diferente do que me lembrava dos tempos de
estudante, e acho que não é só por ser dia. Na altura da faculdade era tudo tão
diferente, jurava a pés juntos que seria magistrado do Ministério Público e
defenderia a legalidade a todo o custo, nunca imaginei que acabaria como
consultor, a argumentar por interesses à medida do pagamento. Algum dia hão de me
explicar onde ficam os sonhos da juventude, deve haver um monte deles guardados
em cantos obscuros das nossas memórias, em sacos de lixo bem escuros e atados, à espera da reciclagem da próxima fase da nossa vida.
Um
casal de turistas pede-me indicações e eu respondo, em francês, que também sou
turista. É a mais pura das verdades, hoje sinto-me estrangeiro no meio desta
cidade onde moro há mais de vinte anos e que já é mais minha do que Beja, da
qual nem o sotaque conservo. E as voltas que já dei, sem me aperceber muito bem
como, já passei o Chiado, a Baixa e estou no Terreiro do Paço, a contemplar o
Tejo. Outrora este foi o centro do mundo, deste rio saíam navios para todas as
partes do mundo. Acho que ainda não interiorizei, mas também eu vou explorar um
novo mundo e não faço ideia do que me espera. Sozinho a começar tudo de novo e,
no entanto, quando menos esperava, foi hoje que me dei conta do charme que a
urbanidade Lisboeta oferece, embora antes, de olhos rotineiros, abertos, apressados,
nunca sequer me apercebi.
O
Fonseca já me está a telefonar, mas não me apetece ter de lhe ouvir a voz
estridente. Vou antes exercer o meu direito de visita ao canito, ele não cheira
tão mal como isso. Pode ser que a Leonor se compadeça e me ofereça jantar e um
pouco de companhia. Por hoje, não preciso de mais.
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