Amor Omnia Vincit
Capítulo
i
São cinco da manhã, o meu corpo e
espírito despertam antes de todos os outros acordarem. É ainda de noite, e
ainda nem os galos do saguão atrás do meu prédio davam sinais de euforia
matutina. Abro a janela, respiro fundo. Nada vejo. A neblina etérea que se
espraia densa na minha rua, descobre-se repleta de gotículas microscópicas de H2O.
Rapidamente estas se espalham pelas minhas vias respiratórias. Espirro. O medo
surge em mim e o mistério instala-se. O tempo passa e o Sol não brota pelo
horizonte da Terra, tal como dantes costumava. Lisboa não é a mesma, mudou.
Tornou-se cinzenta e perdeu a sua luz. Por instantes, considerei-a perdida e
moribunda.
Foi aí que Heliocanto se deparou com um potencial resfriado
no qual teve que atacar de imediato. Deslocou-se determinante para a sua farmácia
pessoal pois é um indivíduo que sofre de hipocondria momentânea graças ao seu
defeito de hiperbolizar tudo o que lhe rodeia. Encarna, por isso, a figura do
exagero.
Finalmente, depois de tomar uma dose cavalar de comprimidos, alguns
antibióticos fora de prazo e outros preparos caseiros de intragável sabor, atirou-se
cheio de prazer para a sua grande e circular banheira coberta por uma perfumada
espuma lilás que flutua de lés-a-lés sobre aquela hidrosfera. A casa de banho é
um dos seus locais favoritos da sua residência, o seu reduto mais íntimo. A sua
magna higiene é constante, já que é capaz de tomar doze banhos por dia. O que
acaba por ser um hábito verdadeiramente sui generis.
Pego no isqueiro, acendo-o com cuidado e
gasto a última cigarrilha do meu maço pousado sobre a mesa de apoio. Era um
presente do meu ex-namorado. O alfabeto árabe daquela embalagem deleita-me
ainda, e a sua grafia traduz-se numa beleza que me faz lembrar aquela humilde
criatura. Esta é a viva lembrança de uma hipnótica noite passada num botequim
de burlesco no autêntico e frenético bairro do Cais do Sodré.
- Toma esta surpresa! São 40 cigarrilhas de proveniência exótica.
Daquele Egipto que nos é tão estimado, - dizia o Hefesto com um olhar radioso.
Esta insigne memória de Heliocanto já contava com sete meses
de permanência nos seus pensamentos rotineiros.
Estendo-me contemplativo, molhado e nu
sobre o sofá de mármore em frente à banheira. Inspiro, expiro. O fumo pinta o
meu campo de visão. Penso. Aquela divisão da casa metamorfoseia-se. Medito. As
cinzas escapam-se pelo ralo, esse portal que esconde um outro mundo, uma outra
realidade. O submundo que purifica a supra cidade. A humidade cai lentamente
pelas paredes carregadas de mosaicos coloridos cheios de motivos vegetalistas. Lembram-me os da Villa Adriana, perto da Cidade Eterna. Ou aquela que foi
conhecida por Caput Mundi, a cabeça do mundo conhecido. Múltiplos vales de água
criam mapas imaginários de sítios inexistentes. Começo a imaginar. Fecho os
olhos e o sonho começa. A pele encarquilha-se e Hefesto reaparece neste
anfiteatro dos sentidos.
[Sonho convertido em texto de influência
surrealista] O som que se despedaça nos meus ouvidos tem o sabor de laranjas em
flor, estreladas, ainda unidas aos troncos de madeira em pó. Eis que esta mais
tarde desaparecia, nas noites de aurora borealis. Eis que acontecimento tão digno e inaugural. Oh que novidade, oh que
plateia! Tão magna quanto a Praça do Comércio que além de nos encantar, faz-nos
sentir muito pequeninos, desumanizados, e do tamanho de um micróbio por
descobrir. Esmagados. Esmagados pelo poder alienista que desgoverna Portugal, encabeçados
por gordos suínos vindos da Lua em cima de folhas supersónicas movidas a seiva
gaseificada.
Acordo arrepiado pelo frio aquátil, e
zonzo pela fantasia agora acabada. Ainda impactado pela natureza do meu sonho
cheio de irrealidades desconcertantes misturadas por entre o mundo que eu
conheço, por momentos, o dito lembra-me o desgoverno venenoso que gradualmente
corrói e despedaça este meu âmago. Pelo som impiedoso de quem antes me fora
afectuoso. Após tanto tempo, dou-me conta que Hefesto ainda povoa o meu
inconsciente. Será verdade?! A palavra-chave desta charada descobre-se.
Eram oito da manhã, a pele roxa incrivelmente enrugada mutava-se sobre aquele corpo só e anteriormente adormecido. A água cálida jorrava
de novo e, enquanto esta se despenhava sobre o dorso lilás, um som
aparentemente caótico era, no pensar de Heliocanto,
um autêntico cantar das Tágides que ainda se faz ecoar pelo Rio Tejo, nascido
dos reflexos do luar que incide, platinar, em noites de Lua Cheia, sobre as
vagas do estuário que acaricia as lajes de calcário da Torre de Belém que
simboliza o império ido e o quinto destino que há-de vir.
Saio do rápido duche, enxugo-me. Precipito-me
para o quarto. Escolho a conquilha de hóquei que sempre achei confortável para
vestir debaixo do meu elegante fato assertoado de riscas, coroado pelos meus
sapatos Oxford de cor castanha, todos os dias envernizados. Eis, uma ideal
combinação para um dia que já se adivinha longo pela quantidade de tarefas a
cumprir, quer na luvaria onde eu trabalho, quer nas compras que hei-de fazer
nas livrarias do Chiado. Compro quase sempre um livro por dia no cair da noite. A
minha biblioteca expande-se, brota por todos os lados. É uma bactéria que não
me mata mas faz-me mais forte. A cultura alimenta-me e tira-me a fome de
pensar. Acabo os dias a escrever, sai-me naturalmente. É uma espécie de purga
diária, que me limpa o espírito à noite. Da mesma maneira que o banho de espuma
me lava de madrugada.
Depois de se notar naquele ambiente, o aroma de hibisco e
almíscar, fundido com o de canela e de cardamomo, já se sabia que era a hora na
qual Heliocanto tinha seguido o seu roteiro habitual para o local de trabalho.
Nas ruas já se ouvia a sonância da sola dos seus sapatos a sobrevoar e a tombar
sobre as pedras da calçada, bem como por cima da passadeira de peões que na
qual os húmidos carris do eléctrico 25 passavam. Mais tarde, perto dali, a
característica buzina deste ilustre lisboeta amarelo e motorizado fazia-se
adivinhar metros antes de chegar à paragem junto da Basílica da Estrela, a um
hectare de distância da sua casa. O óculo luminoso emoldurado pelo eléctrico
encontrava-se, àquela hora do dia , invulgarmente desfocado, ténue e confuso. Irradiava uma
luz tão misteriosa quanto aquela alvorada. Posto isto, Heliocanto sentava-se no
lugar que sempre ocupara desde que este estivesse vazio. Aquele de pele já
deveras desgastada, cujo cheiro característico faz viajar qualquer um. Aquele
que só acolhe o peso de uma pessoa, rente à janela de correr que nessa manhã de
névoa se encontrava embaciada e profusamente habitada pelo orvalho expelido por
Eos, a aurora descendente dos Campos Elísios.
Aquele meio de transporte já centenário, ainda vigoroso, aproximava-se do Largo Luiz Vaz de Camões para parar junto à estátua daquele grande poeta, símbolo do renascimento português que derrubou medos irracionais e atravessou mundos repletos de audácia e ousadia. Um espírito duma civilização que hoje anda adormecido, completamente apagado, tal como o início da estranha manhã.
Aquele meio de transporte já centenário, ainda vigoroso, aproximava-se do Largo Luiz Vaz de Camões para parar junto à estátua daquele grande poeta, símbolo do renascimento português que derrubou medos irracionais e atravessou mundos repletos de audácia e ousadia. Um espírito duma civilização que hoje anda adormecido, completamente apagado, tal como o início da estranha manhã.
Saio do eléctrico. Não penso, dou
primazia às minhas sensações. Fico atento. Paro, olho, escuto e sinto.
Múltiplas pessoas, sonoridades, cores e credos cruzam-se naquela que é a
capital de Lisboa, o vibrante Chiado que sugere o repetitivo cânone de um
coração. Reparo que no pedestal daquela escultura onde estão dois paquistaneses felizes
e sentados, um de preto e outro de roxo, com turbantes a condizer. Decidiram
escolher a mui antiga Rainha dos Oceanos como sua nova casa, percorrendo às
avessas o mesmo caminho que os bem-aventurados cursaram há quinhentos anos
atrás. Que visão incrível. Poeticamente falando, o Oriente tinha acabado de
beijar o Ocidente. Aqui a paz repercute-se graças à coexistência que se faz
sentir. O dia torna-se solarengo. Volto ao meu caminho rotineiro e chego a
horas. Visto a farda e cumprimento o meu irmão. O trabalho começa. O cheiro a pele
curtida abunda e espalha-se até à entrada. E a cor também. Na verdade, esta consegue
abranger quase todo o espectro luminoso visível ao olho humano. É um paraíso
visual pleno de vida e de línguas. O mundo converge naqueles cinquenta metros
quadrados onde o inglês, o italiano, o alemão e o francês se difundem e as
luvas viajam para os países de origem daqueles intrépidos turistas. A portugalidade
aloja-se nos seus corações. A saudade que antes desconheciam agora acomoda-se
nas suas memórias. A ânsia do regresso instala-se.
Naquela luvaria, eram vendidas diariamente mais de mil e
duzentas luvas feitas à mão por artesãos altamente especializados e escolhidos
a dedo pelos sócios. Os irmãos Heliocanto e Belcanto. Todos eles trabalhavam
arduamente para manter a produção e a qualidade daqueles luxuosos acessórios
repelentes do impiedoso frio que se esbate quando a bela Perséfone fora raptada
por Hades, o rei do terrível tártaro gélido e subterrâneo. A época que hoje é mais
conhecida como Inverno.
A noite já espreita pelas mansardas e a luz do Sol esvai-se
completamente. A hora do fecho aproxima-se. A contabilidade do dia efectua-se. Fico
cansado, embora realizado. Foram vendidas duas mil hoje. Um recorde que tem
acompanhado a grande vaga de visitantes a esta cidade por alguns tão amada. Despeço-me do meu irmão e decido
deambular pelas ruas, praticar o Flâneur que o escritor Charles Baudelaire preconizava
nas narrativas dos seus livros. Experiencio e fico agradado. Redescubro a
cidade e reparo que me surpreende quando menos espero. É mágico. A
cinematografia da cidade é estonteante. Merecia um filme na verdade. Hei-de
começar a escrever um argumento. A ideia cristaliza-se enquanto apanho o metropolitano
na estação do Rossio.
Entretanto, Heliocanto ia no metro a pensar na frase
extraordinária que lhe iria mudar a vida e sorria, sem sequer se aperceber.
Sem comentários:
Enviar um comentário