Etapas da vida
Ia
no metro a pensar na frase extraordinária que lhe iria mudar a vida e sorria,
sem sequer se aperceber. O homem à sua frente achou que ela parecia enigmática
como o gato de Cheshire ou, em alternativa, que seria um bocadinho louca,
definitivamente não era normal ver uma pessoa a viajar sozinha no metro com um
ar satisfeito. Ela permanecia absorta, a repetir mentalmente: «Júlia, temos
muito gosto em que seja a responsável pelo nosso estudo sobre a influência da
cultura portuguesa no Hawaii».
A
rapariga nascida e criada na Amadora ia finalmente viajar de avião e, cereja no
topo do bolo, ia conhecer ilhas paradisíacas. Nem conseguia acreditar na sua
sorte.
Já
no comboio, de regresso a casa, foi treinando a apresentação deste seu projeto
aos pais. Obviamente ia custar-lhes o afastamento, mas ela já tinha tomado a
sua decisão. Tinha de lhes explicar que era o reconhecimento pelos anos que
havia dedicado ao estudo da história, que ia integrar uma equipa de prestígio
no meio académico e, afinal, havia de ter em conta a dificuldade em arranjar
bons projetos, que fossem publicados em revistas de especialidade, ainda por
cima remunerados, por tudo isto era de aproveitar a oportunidade. Sem hesitar.
Além
disso, já se imaginava na praia, a tomar um cocktail
e a admirar os surfistas, após um dia de pesquisa na biblioteca e de contacto
com especialistas locais. Era uma otimista e, quanto mais pensava no assunto,
mais entusiasmada ficava. Ao sair do comboio já havia decidido que o cocktail seria alcoólico, já que, num
destino desses, poderia dar-se ao luxo de cometer uns ligeiros excessos. Aliás,
seria um desperdício não aproveitar, haveria de ser tal como num filme.
Obviamente, essa parte não diria aos pais, era mais prudente.
Chegou
a casa e estranhou não ver o carro da família na entrada, achava que já deviam ter
chegado e mal podia esperar por lhes contar a novidade. Entrou pela porta da
cozinha, estranhou o cheiro que se sentia e apressou-se a acender a luz para tentar
perceber o que se passaria. Nem se apercebeu da explosão causada pela fuga de
gás, apenas teve a impressão de ver um sorriso brilhante no meio do fumo.
Os pais tinham saído repentinamente para comprar o seu gelado preferido
para sobremesa e a mãe, distraída, não reparou que o forno não ficara
corretamente desligado, mas isso Júlia nunca chegou a saber. Passou calmamente para
o outro lado do espelho, onde não teria obra publicada, mas onde poderia ser
chanfrada sem qualquer inibição.
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