segunda-feira, 29 de setembro de 2014

1.ª Resposta ao Desafio n.º1, lançadora: Rita


Etapas da vida

Ia no metro a pensar na frase extraordinária que lhe iria mudar a vida e sorria, sem sequer se aperceber. O homem à sua frente achou que ela parecia enigmática como o gato de Cheshire ou, em alternativa, que seria um bocadinho louca, definitivamente não era normal ver uma pessoa a viajar sozinha no metro com um ar satisfeito. Ela permanecia absorta, a repetir mentalmente: «Júlia, temos muito gosto em que seja a responsável pelo nosso estudo sobre a influência da cultura portuguesa no Hawaii».

A rapariga nascida e criada na Amadora ia finalmente viajar de avião e, cereja no topo do bolo, ia conhecer ilhas paradisíacas. Nem conseguia acreditar na sua sorte.

Já no comboio, de regresso a casa, foi treinando a apresentação deste seu projeto aos pais. Obviamente ia custar-lhes o afastamento, mas ela já tinha tomado a sua decisão. Tinha de lhes explicar que era o reconhecimento pelos anos que havia dedicado ao estudo da história, que ia integrar uma equipa de prestígio no meio académico e, afinal, havia de ter em conta a dificuldade em arranjar bons projetos, que fossem publicados em revistas de especialidade, ainda por cima remunerados, por tudo isto era de aproveitar a oportunidade. Sem hesitar.

Além disso, já se imaginava na praia, a tomar um cocktail e a admirar os surfistas, após um dia de pesquisa na biblioteca e de contacto com especialistas locais. Era uma otimista e, quanto mais pensava no assunto, mais entusiasmada ficava. Ao sair do comboio já havia decidido que o cocktail seria alcoólico, já que, num destino desses, poderia dar-se ao luxo de cometer uns ligeiros excessos. Aliás, seria um desperdício não aproveitar, haveria de ser tal como num filme. Obviamente, essa parte não diria aos pais, era mais prudente.

Chegou a casa e estranhou não ver o carro da família na entrada, achava que já deviam ter chegado e mal podia esperar por lhes contar a novidade. Entrou pela porta da cozinha, estranhou o cheiro que se sentia e apressou-se a acender a luz para tentar perceber o que se passaria. Nem se apercebeu da explosão causada pela fuga de gás, apenas teve a impressão de ver um sorriso brilhante no meio do fumo.
Os pais tinham saído repentinamente para comprar o seu gelado preferido para sobremesa e a mãe, distraída, não reparou que o forno não ficara corretamente desligado, mas isso Júlia nunca chegou a saber. Passou calmamente para o outro lado do espelho, onde não teria obra publicada, mas onde poderia ser chanfrada sem qualquer inibição.

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