Passeio anónima, na intensidade
da luz e monumentalidade do Chiado. Desço a Rua Nova do Almada em direção ao
Terreiro do Paço. Observo os espaços. Ao fundo a beleza majestosa do Arco da
Rua Augusta. A imponência da estátua de D. José. Prossigo envolvida pela
estética do lugar. As máscaras são diversas. Multicolores. Umas estáticas.
Outras dinâmicas. Os músicos a tocar trompete e violino. Parece-me, que tocam
só, para mim. Absorvida pela fragrância refrescante do Tejo, na hora em que hoje
passeio, questiono sobre o sentido da minha vida. O meu olhar desvia-se por
momentos do pormenor para se concentrar nas expressões dos rostos. Sozinha, no
meio da multidão agitada pergunto para mim própria se as pessoas com quem me
cruzo se interrogam sobre o sentido das suas próprias vidas. Que tipos de interrogações terão? Serão idênticas às minhas?
Que assuntos importantes têm para resolver para estarem tão apressadas? Olho-as
com muita atenção. A sua forma é marcada essencialmente pelo movimento
incessante. Parecem apressados. Não observam, vagueiam. Têm pressa para quê? Se
os questionasse sobre o propósito desse objetivo provavelmente não conseguiria
extrair uma resposta inteligível a partir da informação obtida. Sinto que somos
incapazes de acabar com o sentimento de vazio, de incompletude. Procuramos um
objetivo, na expetativa de um futuro que existe apenas no pensamento. Somos prisioneiros
de um passado que já não existe e de um futuro ainda por surgir. Vivencia-se um
presente que se evapora em desilusão. Para superar esta conflitualidade
procura-se outras ilusões para que o tédio não seja um fim inevitável. Esta é
quanto a mim a grande dimensão da liberdade: Criar e sonhar. Absorvida por
estes pensamentos nem me apercebi que anoiteceu. Continuei, caminhando
silenciosa no som dos meus passos. Porém, olhava ainda atentamente os pormenores.
Os sinais luminosos surgiam e permitiam agora, um contraste com a sobriedade e
beleza da arquitetura que a urbanidade lisboeta oferece, embora antes, de olhos
rotineiros, abertos, apressados, nunca sequer me apercebi…
Criatividade com imaginação
(ou amigos com a pretensão de se divertirem com o inesperado que nos surpreende no quotidiano)
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Criatividade com imaginação: 1.º desafio - lançador: Miguel
Criatividade com imaginação: 1.º desafio - lançador: Miguel: "Foi hoje que me dei conta do charme que a urbanidade Lisboeta oferece, embora antes, de olhos rotineiros, abertos, apressados, nu
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
2.° Desafio, Lançador: Miguel
"Vi-te nos meus sonhos. Estavas diferente. A roupa que vestias não era habitual. E aquela voz que eu dantes conhecia, mudara. O cabelo tornara-se loiro, em vez de ruivo. Metemorfoseou-se por completo. A confusão instalou-se em mim."
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
2.º desafio, lançadora: Rita
Da sua janela observava placidamente a obra que acontecia no passeio, mesmo ao lado da sua porta. Distraidamente, com todo o vagar, levou o cigarro à boca, interrogando-se sobre como seria a vida dos operários para além da azáfama da construção.
1.ª Resposta ao Desafio n.º1, lançadora: Rita
Etapas da vida
Ia
no metro a pensar na frase extraordinária que lhe iria mudar a vida e sorria,
sem sequer se aperceber. O homem à sua frente achou que ela parecia enigmática
como o gato de Cheshire ou, em alternativa, que seria um bocadinho louca,
definitivamente não era normal ver uma pessoa a viajar sozinha no metro com um
ar satisfeito. Ela permanecia absorta, a repetir mentalmente: «Júlia, temos
muito gosto em que seja a responsável pelo nosso estudo sobre a influência da
cultura portuguesa no Hawaii».
A
rapariga nascida e criada na Amadora ia finalmente viajar de avião e, cereja no
topo do bolo, ia conhecer ilhas paradisíacas. Nem conseguia acreditar na sua
sorte.
Já
no comboio, de regresso a casa, foi treinando a apresentação deste seu projeto
aos pais. Obviamente ia custar-lhes o afastamento, mas ela já tinha tomado a
sua decisão. Tinha de lhes explicar que era o reconhecimento pelos anos que
havia dedicado ao estudo da história, que ia integrar uma equipa de prestígio
no meio académico e, afinal, havia de ter em conta a dificuldade em arranjar
bons projetos, que fossem publicados em revistas de especialidade, ainda por
cima remunerados, por tudo isto era de aproveitar a oportunidade. Sem hesitar.
Além
disso, já se imaginava na praia, a tomar um cocktail
e a admirar os surfistas, após um dia de pesquisa na biblioteca e de contacto
com especialistas locais. Era uma otimista e, quanto mais pensava no assunto,
mais entusiasmada ficava. Ao sair do comboio já havia decidido que o cocktail seria alcoólico, já que, num
destino desses, poderia dar-se ao luxo de cometer uns ligeiros excessos. Aliás,
seria um desperdício não aproveitar, haveria de ser tal como num filme.
Obviamente, essa parte não diria aos pais, era mais prudente.
Chegou
a casa e estranhou não ver o carro da família na entrada, achava que já deviam ter
chegado e mal podia esperar por lhes contar a novidade. Entrou pela porta da
cozinha, estranhou o cheiro que se sentia e apressou-se a acender a luz para tentar
perceber o que se passaria. Nem se apercebeu da explosão causada pela fuga de
gás, apenas teve a impressão de ver um sorriso brilhante no meio do fumo.
Os pais tinham saído repentinamente para comprar o seu gelado preferido
para sobremesa e a mãe, distraída, não reparou que o forno não ficara
corretamente desligado, mas isso Júlia nunca chegou a saber. Passou calmamente para
o outro lado do espelho, onde não teria obra publicada, mas onde poderia ser
chanfrada sem qualquer inibição.
1.ª resposta ao desafio n.º 1, lançador: Miguel
Novos mundos à vida
«Os
seus serviços não serão mais necessários, lamento imenso. Sabe como eu aprecio
o seu profissionalismo e a qualidade do seu trabalho, mas, é o país que temos…
há que fazer cortes e a administração resolveu extinguir o seu cargo. Lamento
imenso, Aníbal, nem calcula. Sei bem dos compromissos que assumiu, a recente compra
do apartamento, e tudo. Será indemnizado, obviamente. Além disso, com o seu
currículo e com as nossas boas recomendações, certamente, irá conseguir
arranjar uma boa posição num futuro próximo. Pode até contar…»
Deixei
de ouvir. Continuei a acenar mecanicamente com a cabeça, um reflexo de pura
incredulidade, que acho que foi confundido por sinal de concordância, de tão
bronco que é o Fonseca. Há mais de dez anos que me esfalfava por aquela
palhaçada de empresa de consultoria, fazia horários impensáveis, procurava
superar sempre o que me era pedido. Caraças, até me tinha custado a porcaria do
casamento (ah e tal, ligas mais ao trabalho do que a mim, nhec, nhec, nhec) e
lá foi Leonor, porta fora, formosa e bastante furiosa, levando consigo o mal
cheiroso do bulldog francês. E ainda treinei não sei quantos estagiários.
Aposto que um daqueles estuporzinhos petulantes me vai substituir.
Levantei-me
a meio de uma frase qualquer e saí. O Fonseca deve perceber a asneira que está
a fazer rapidamente. Logo se verá. Assim
que chego à rua apercebo-me que nunca tinha saído para
passear ao princípio da tarde em dias úteis. Claro que saía às vezes, para alguma reunião ou
consulta médica, mas era sempre com pressa, com o telemóvel na mão a confirmar
se havia algum recado urgente que exigisse a minha atenção.
Está
bom tempo, agradável. Acho que nem ao fim de semana me apercebo do tempo já
que, ou fico em casa a aproveitar para ler mais algum relatório, ou vou a um
centro comercial, despachar alguma compra essencial. Férias, nem pensar em
passá-las aqui, a pior das hipóteses leva-me ao Algarve, o normal é ir para a neve
no Inverno, e para ilhas com boa praia, em diferentes localizações, conforme a
época em que consego tirar férias. A ter de ficar em Lisboa no resto do ano,
só funcionava com muito ar condicionado no carro. Para cúmulo, hoje o carro está na oficina e vou ter de apanhar um táxi para casa. A sorte, tal como o azar, vem sempre em pacote completo.
Começo a perceber que nos últimos tempos andei distraído com
as virtudes da capital e viro
à direita, até à Brancaamp. Apetece-me aproveitar esta minha disposição
nova, sinto-me como se estivesse a participar num filme cujo enredo desconheço. Subo em direção ao Rato, nunca tinha reparado na sinagoga, nem que há uns
edifícios com prémios de arquitetura. Estou quase a dar razão à Leonor,
deixei-me alhear demais do que me rodeia, nem percebi como. Viro para o
Príncipe Real, cada vez mais atento aos detalhes, à calçada irregular, às
fachadas mais ou menos deterioradas, reflexo desta vida de aparências e falsos conteúdos de hoje em dia.
Fico
abismado, o Bairro Alto está tão diferente do que me lembrava dos tempos de
estudante, e acho que não é só por ser dia. Na altura da faculdade era tudo tão
diferente, jurava a pés juntos que seria magistrado do Ministério Público e
defenderia a legalidade a todo o custo, nunca imaginei que acabaria como
consultor, a argumentar por interesses à medida do pagamento. Algum dia hão de me
explicar onde ficam os sonhos da juventude, deve haver um monte deles guardados
em cantos obscuros das nossas memórias, em sacos de lixo bem escuros e atados, à espera da reciclagem da próxima fase da nossa vida.
Um
casal de turistas pede-me indicações e eu respondo, em francês, que também sou
turista. É a mais pura das verdades, hoje sinto-me estrangeiro no meio desta
cidade onde moro há mais de vinte anos e que já é mais minha do que Beja, da
qual nem o sotaque conservo. E as voltas que já dei, sem me aperceber muito bem
como, já passei o Chiado, a Baixa e estou no Terreiro do Paço, a contemplar o
Tejo. Outrora este foi o centro do mundo, deste rio saíam navios para todas as
partes do mundo. Acho que ainda não interiorizei, mas também eu vou explorar um
novo mundo e não faço ideia do que me espera. Sozinho a começar tudo de novo e,
no entanto, quando menos esperava, foi hoje que me dei conta do charme que a
urbanidade Lisboeta oferece, embora antes, de olhos rotineiros, abertos, apressados,
nunca sequer me apercebi.
O
Fonseca já me está a telefonar, mas não me apetece ter de lhe ouvir a voz
estridente. Vou antes exercer o meu direito de visita ao canito, ele não cheira
tão mal como isso. Pode ser que a Leonor se compadeça e me ofereça jantar e um
pouco de companhia. Por hoje, não preciso de mais.
1.ª Resposta ao Desafio nº1: Miguel
Amor Omnia Vincit
Capítulo
i
São cinco da manhã, o meu corpo e
espírito despertam antes de todos os outros acordarem. É ainda de noite, e
ainda nem os galos do saguão atrás do meu prédio davam sinais de euforia
matutina. Abro a janela, respiro fundo. Nada vejo. A neblina etérea que se
espraia densa na minha rua, descobre-se repleta de gotículas microscópicas de H2O.
Rapidamente estas se espalham pelas minhas vias respiratórias. Espirro. O medo
surge em mim e o mistério instala-se. O tempo passa e o Sol não brota pelo
horizonte da Terra, tal como dantes costumava. Lisboa não é a mesma, mudou.
Tornou-se cinzenta e perdeu a sua luz. Por instantes, considerei-a perdida e
moribunda.
Foi aí que Heliocanto se deparou com um potencial resfriado
no qual teve que atacar de imediato. Deslocou-se determinante para a sua farmácia
pessoal pois é um indivíduo que sofre de hipocondria momentânea graças ao seu
defeito de hiperbolizar tudo o que lhe rodeia. Encarna, por isso, a figura do
exagero.
Finalmente, depois de tomar uma dose cavalar de comprimidos, alguns
antibióticos fora de prazo e outros preparos caseiros de intragável sabor, atirou-se
cheio de prazer para a sua grande e circular banheira coberta por uma perfumada
espuma lilás que flutua de lés-a-lés sobre aquela hidrosfera. A casa de banho é
um dos seus locais favoritos da sua residência, o seu reduto mais íntimo. A sua
magna higiene é constante, já que é capaz de tomar doze banhos por dia. O que
acaba por ser um hábito verdadeiramente sui generis.
Pego no isqueiro, acendo-o com cuidado e
gasto a última cigarrilha do meu maço pousado sobre a mesa de apoio. Era um
presente do meu ex-namorado. O alfabeto árabe daquela embalagem deleita-me
ainda, e a sua grafia traduz-se numa beleza que me faz lembrar aquela humilde
criatura. Esta é a viva lembrança de uma hipnótica noite passada num botequim
de burlesco no autêntico e frenético bairro do Cais do Sodré.
- Toma esta surpresa! São 40 cigarrilhas de proveniência exótica.
Daquele Egipto que nos é tão estimado, - dizia o Hefesto com um olhar radioso.
Esta insigne memória de Heliocanto já contava com sete meses
de permanência nos seus pensamentos rotineiros.
Estendo-me contemplativo, molhado e nu
sobre o sofá de mármore em frente à banheira. Inspiro, expiro. O fumo pinta o
meu campo de visão. Penso. Aquela divisão da casa metamorfoseia-se. Medito. As
cinzas escapam-se pelo ralo, esse portal que esconde um outro mundo, uma outra
realidade. O submundo que purifica a supra cidade. A humidade cai lentamente
pelas paredes carregadas de mosaicos coloridos cheios de motivos vegetalistas. Lembram-me os da Villa Adriana, perto da Cidade Eterna. Ou aquela que foi
conhecida por Caput Mundi, a cabeça do mundo conhecido. Múltiplos vales de água
criam mapas imaginários de sítios inexistentes. Começo a imaginar. Fecho os
olhos e o sonho começa. A pele encarquilha-se e Hefesto reaparece neste
anfiteatro dos sentidos.
[Sonho convertido em texto de influência
surrealista] O som que se despedaça nos meus ouvidos tem o sabor de laranjas em
flor, estreladas, ainda unidas aos troncos de madeira em pó. Eis que esta mais
tarde desaparecia, nas noites de aurora borealis. Eis que acontecimento tão digno e inaugural. Oh que novidade, oh que
plateia! Tão magna quanto a Praça do Comércio que além de nos encantar, faz-nos
sentir muito pequeninos, desumanizados, e do tamanho de um micróbio por
descobrir. Esmagados. Esmagados pelo poder alienista que desgoverna Portugal, encabeçados
por gordos suínos vindos da Lua em cima de folhas supersónicas movidas a seiva
gaseificada.
Acordo arrepiado pelo frio aquátil, e
zonzo pela fantasia agora acabada. Ainda impactado pela natureza do meu sonho
cheio de irrealidades desconcertantes misturadas por entre o mundo que eu
conheço, por momentos, o dito lembra-me o desgoverno venenoso que gradualmente
corrói e despedaça este meu âmago. Pelo som impiedoso de quem antes me fora
afectuoso. Após tanto tempo, dou-me conta que Hefesto ainda povoa o meu
inconsciente. Será verdade?! A palavra-chave desta charada descobre-se.
Eram oito da manhã, a pele roxa incrivelmente enrugada mutava-se sobre aquele corpo só e anteriormente adormecido. A água cálida jorrava
de novo e, enquanto esta se despenhava sobre o dorso lilás, um som
aparentemente caótico era, no pensar de Heliocanto,
um autêntico cantar das Tágides que ainda se faz ecoar pelo Rio Tejo, nascido
dos reflexos do luar que incide, platinar, em noites de Lua Cheia, sobre as
vagas do estuário que acaricia as lajes de calcário da Torre de Belém que
simboliza o império ido e o quinto destino que há-de vir.
Saio do rápido duche, enxugo-me. Precipito-me
para o quarto. Escolho a conquilha de hóquei que sempre achei confortável para
vestir debaixo do meu elegante fato assertoado de riscas, coroado pelos meus
sapatos Oxford de cor castanha, todos os dias envernizados. Eis, uma ideal
combinação para um dia que já se adivinha longo pela quantidade de tarefas a
cumprir, quer na luvaria onde eu trabalho, quer nas compras que hei-de fazer
nas livrarias do Chiado. Compro quase sempre um livro por dia no cair da noite. A
minha biblioteca expande-se, brota por todos os lados. É uma bactéria que não
me mata mas faz-me mais forte. A cultura alimenta-me e tira-me a fome de
pensar. Acabo os dias a escrever, sai-me naturalmente. É uma espécie de purga
diária, que me limpa o espírito à noite. Da mesma maneira que o banho de espuma
me lava de madrugada.
Depois de se notar naquele ambiente, o aroma de hibisco e
almíscar, fundido com o de canela e de cardamomo, já se sabia que era a hora na
qual Heliocanto tinha seguido o seu roteiro habitual para o local de trabalho.
Nas ruas já se ouvia a sonância da sola dos seus sapatos a sobrevoar e a tombar
sobre as pedras da calçada, bem como por cima da passadeira de peões que na
qual os húmidos carris do eléctrico 25 passavam. Mais tarde, perto dali, a
característica buzina deste ilustre lisboeta amarelo e motorizado fazia-se
adivinhar metros antes de chegar à paragem junto da Basílica da Estrela, a um
hectare de distância da sua casa. O óculo luminoso emoldurado pelo eléctrico
encontrava-se, àquela hora do dia , invulgarmente desfocado, ténue e confuso. Irradiava uma
luz tão misteriosa quanto aquela alvorada. Posto isto, Heliocanto sentava-se no
lugar que sempre ocupara desde que este estivesse vazio. Aquele de pele já
deveras desgastada, cujo cheiro característico faz viajar qualquer um. Aquele
que só acolhe o peso de uma pessoa, rente à janela de correr que nessa manhã de
névoa se encontrava embaciada e profusamente habitada pelo orvalho expelido por
Eos, a aurora descendente dos Campos Elísios.
Aquele meio de transporte já centenário, ainda vigoroso, aproximava-se do Largo Luiz Vaz de Camões para parar junto à estátua daquele grande poeta, símbolo do renascimento português que derrubou medos irracionais e atravessou mundos repletos de audácia e ousadia. Um espírito duma civilização que hoje anda adormecido, completamente apagado, tal como o início da estranha manhã.
Aquele meio de transporte já centenário, ainda vigoroso, aproximava-se do Largo Luiz Vaz de Camões para parar junto à estátua daquele grande poeta, símbolo do renascimento português que derrubou medos irracionais e atravessou mundos repletos de audácia e ousadia. Um espírito duma civilização que hoje anda adormecido, completamente apagado, tal como o início da estranha manhã.
Saio do eléctrico. Não penso, dou
primazia às minhas sensações. Fico atento. Paro, olho, escuto e sinto.
Múltiplas pessoas, sonoridades, cores e credos cruzam-se naquela que é a
capital de Lisboa, o vibrante Chiado que sugere o repetitivo cânone de um
coração. Reparo que no pedestal daquela escultura onde estão dois paquistaneses felizes
e sentados, um de preto e outro de roxo, com turbantes a condizer. Decidiram
escolher a mui antiga Rainha dos Oceanos como sua nova casa, percorrendo às
avessas o mesmo caminho que os bem-aventurados cursaram há quinhentos anos
atrás. Que visão incrível. Poeticamente falando, o Oriente tinha acabado de
beijar o Ocidente. Aqui a paz repercute-se graças à coexistência que se faz
sentir. O dia torna-se solarengo. Volto ao meu caminho rotineiro e chego a
horas. Visto a farda e cumprimento o meu irmão. O trabalho começa. O cheiro a pele
curtida abunda e espalha-se até à entrada. E a cor também. Na verdade, esta consegue
abranger quase todo o espectro luminoso visível ao olho humano. É um paraíso
visual pleno de vida e de línguas. O mundo converge naqueles cinquenta metros
quadrados onde o inglês, o italiano, o alemão e o francês se difundem e as
luvas viajam para os países de origem daqueles intrépidos turistas. A portugalidade
aloja-se nos seus corações. A saudade que antes desconheciam agora acomoda-se
nas suas memórias. A ânsia do regresso instala-se.
Naquela luvaria, eram vendidas diariamente mais de mil e
duzentas luvas feitas à mão por artesãos altamente especializados e escolhidos
a dedo pelos sócios. Os irmãos Heliocanto e Belcanto. Todos eles trabalhavam
arduamente para manter a produção e a qualidade daqueles luxuosos acessórios
repelentes do impiedoso frio que se esbate quando a bela Perséfone fora raptada
por Hades, o rei do terrível tártaro gélido e subterrâneo. A época que hoje é mais
conhecida como Inverno.
A noite já espreita pelas mansardas e a luz do Sol esvai-se
completamente. A hora do fecho aproxima-se. A contabilidade do dia efectua-se. Fico
cansado, embora realizado. Foram vendidas duas mil hoje. Um recorde que tem
acompanhado a grande vaga de visitantes a esta cidade por alguns tão amada. Despeço-me do meu irmão e decido
deambular pelas ruas, praticar o Flâneur que o escritor Charles Baudelaire preconizava
nas narrativas dos seus livros. Experiencio e fico agradado. Redescubro a
cidade e reparo que me surpreende quando menos espero. É mágico. A
cinematografia da cidade é estonteante. Merecia um filme na verdade. Hei-de
começar a escrever um argumento. A ideia cristaliza-se enquanto apanho o metropolitano
na estação do Rossio.
Entretanto, Heliocanto ia no metro a pensar na frase
extraordinária que lhe iria mudar a vida e sorria, sem sequer se aperceber.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
1.º desafio - lançador: Miguel
"Foi hoje que me dei conta do charme que a urbanidade Lisboeta oferece, embora antes, de olhos rotineiros, abertos, apressados, nunca sequer me apercebi."
terça-feira, 23 de setembro de 2014
1.º desafio - lançadora: Rita
«Ia no metro a pensar na frase extraordinária que lhe iria mudar a vida e sorria, sem sequer se aperceber.»
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
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